Psicoterapia - A genialidade de Milton H. Erickson Almirante Tamandaré, Paraná

O artigo faz uma analise da vida do grande psicoterapeuta Milton H. Erickson. Saiba um pouco mais da sua vida, dos seus atos e como era o seu pensamento em relacao aos pacientes. Leia mais no artigo abaixo.

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Psicoterapia - A genialidade de Milton H. Erickson

Milton H. Erickson morreu no dia 27 de março de 1980 devido a um choque séptico conseqüência de uma peritonite após uma infecção de estreptococos beta. Tinha setenta e oito anos e morreu rodeado de seus oito filhos e de muitos de seus amigos. Suas cinzas foram espalhadas na Colina Squaw, perto de Phoenix, em uma cerimônia familiar. Em seus quase oitenta anos, Milton soubera ganhar o respeito de toda a classe psiquiátrica, apesar de que seus planejamentos tinham chocado frontalmente com o que até então tinha estado estabelecido de forma oficial.

Milton era um grande contador de contos. Os contos e legendas, as fábulas, as parábolas, os mitos populares e os contos de magas foram utilizados por todas as civilizações humanas, com o fim de transmitir de forma inconsciente doutrinas e valores morais e Milton soube utilizá-los de forma genial com fins terapêuticos. Para Milton, a maioria das coisas que faz um ser humano estão determinadas de forma inconsciente, mas, enquanto para a psicanálise, o inconsciente é muito difícil de mudar, para Milton é sumamente fácil se o fazemos através de um transe, de um estado alterado de consciência. A mente inconsciente é para Milton o melhor amigo de cada indivíduo.

Para Milton, a psicoterapia consiste justamente em influir na outra pessoa através de sua mente inconsciente, oferecer-lhe recursos e dar-lhe oportunidades de mudança. É no estado de transe no qual mais oportunidades existem para que se produza uma aprendizagem e, como conseqüência, a opção de mudança. Em estado de transe, as pessoas são capazes de dar significado aos contos e símbolos, segundo o que Milton denominava “aprendizagem inconsciente”.

Jeffrey Zeig indicou a bondade do emprego de anedotas na terapia já que as anedotas não comportam uma ameaça, captam o interesse da pessoa, fomentam a independência do indivíduo (já que tem que dar-lhe um sentido à mensagem e, como conseqüência, tem que extrair suas próprias conclusões), podem ser usadas para controlar qualquer resistência a mudança, são um modelo de flexibilidade, criam confusão de transe, e, por último, deixam uma pegada na memória.

Ernest Rossi estudou as induções hipnóticas de Milton e as dividiu em cinco períodos: fixação da atenção, despotenciação dos marcos de referência e sistemas de crenças habituais, busca inconsciente, processo inconsciente e resposta hipnótica. Como diz o mesmo Milton, “primeiro você deve oferecer um modelo acorde ao mundo do paciente. Depois você deve oferecer como modelo um rol acorde a esse mundo”.

Há um conto de Milton especialmente interessante, aquele no qual narra a necessidade de saber deter-se e ajustar-se ao próprio ritmo de cada um: “Uma mãe veio a ver-me com sua filha de onze anos. Tão logo escutei que se urinava na cama, lhe pedi à mãe que saísse do consultório, convencido que a menina saberia incluir-me sua própria história. A menina me disse que quando pequenina tinha tido uma infecção na bexiga, tinha sido tratada por um urologista, e a infecção persistiu durante cinco ou seis anos, talvez mais. Periodicamente a submetiam a cistoscopias, lhe praticaram centenas de cistoscopias, até que ao fim encontraram o foco infeccioso em um rim. Lhe extirparam o rim e esteve livre de infecções por quatro anos, mais ou menos. Lhe tinham feito tantas centenas de cistoscopias, que sua bexiga e o esfíncter estavam tão dilatados, que se molhava todas as noites tão logo relaxava a bexiga ao dormir.
Durante o dia podia com esforço controlar a bexiga, a menos que soltasse uma gargalhada. O relaxamento que acompanha o riso a fazia se molhar. Como lhe tinha extirpado o rim e estiveram livres de infecções durante vários anos, seus pais pensavam que ela devia aprender a se auto-controlar. Tinha três irmãzinhas menores que lhe punham apelidos e zombavam dela. Todas as mães de suas companheiras sabiam que ela molhava a cama, e todos seus companheiros de escola, dois ou três mil companheiros, sabiam que ela molhava a cama e urinava quando dava risada. Por tanto era objeto de muitas zombações.

Era uma menina muito alta e bonita, loira, com uns longos cabelos que lhe chegavam até a cintura. Era realmente uma menina encantadora. Tinha que suportar a compaixão dos vizinhos e as zombações de suas irmãs e de seus companheiros. Não podia ir a festas noturnas nem passar a noite na casa de seus parentes porque molhava a cama

Perguntei-lhe se a tinham levado a ver a outros médicos. Respondeu-me que tinha visto um montão, tinha tragado uma tonelada de pílulas e de xaropes, e nada disso a ajudou. Disse-lhe que eu era igual a todos os demais médicos, que também não podia ajudá-la. “Mas, acrescentei, você sabe algo, mesmo que não sabe que você sabe. Tão logo você descubra o que é isso que já você sabe e não sabe que você sabe, poderá acordar com a cama seca.

Depois acrescentei: “Vou lhe fazer uma pergunta muito simples e quero uma resposta muito simples. Esta é a pergunta: se você estivesse sentada no banho, urinando, e um homem desconhecido colocasse a cabeça pela porta, o que você faria?

“Me paralisaria”, respondeu

“Exato. Você se paralisaria, e você pararia de urinar. Agora você sabe o que já você sabia, mas não sabia que você sabia. ou seja, que você pode parar de urinar em qualquer momento, ante qualquer estímulo que a você apareça. Na verdade não necessita que um desconhecido coloque a cabeça pela porta do banho: basta fazer com a mente que isso ocorra. Você pararia, paralisaria, e você começaria a urinar quando ele fosse embora.” Bem. Manter a cama seca é uma árdua tarefa. Talvez você consiga pela primeira vez dentro de duas semanas. Mas você terá que praticar muito, começar a urinar e parar. Talvez alguns dias você se esqueça de praticar a começar e parar. Não importa. Teu corpo será bom contigo, sempre te dará novas oportunidades. E alguns dias talvez você esteja muito ocupada para praticar e começar a parar, mas não importa. Teu corpo te dará sempre novas oportunidades de começar a parar. Me surpreenderia muitíssimo que dentro de três meses você já pudesse manter permanentemente a cama seca. Também me surpreenderia que não pudesse manter permanentemente a cama seca dentro de seis meses. E será muito mais fácil alcançá-lo uma vez, que alcançá-lo duas vezes seguidas. É muito mais difícil ainda alcançar três camas secas seguidas. É mais difícil ainda alcançar quatro camas secas seguidas. A partir dali, fica mais simples. Você poderá ter cinco dias, seis, sete, uma semana inteira de camas seca. E depois chegarás a saber que você pode ter uma semana inteira de camas seca seguidas e outra semana inteira de camas secas.

Gastei meu tempo com a menina. Não tinha outra coisa a fazer. Passei com ela uma hora e meia e depois nos despedimos. Umas duas semanas mais tarde me trouxe este presente (uma vaquinha tecida de cor púrpura), o primeiro presente que jamais tinha feito. Sabendo que era capaz de manter a cama seca. Valorizo este presente. E seis meses depois já passava a noite na casa de parentes, amigos, em festas noturnas, em um hotel. Porque é o paciente que faz a terapia. Não me pareceu que a família desta menina necessitasse de terapia, por mais que os pais estivessem impacientes, as irmãs lhe punham apelidos e os companheiros zombassem dela. Minha sensação era que os pais teriam que se acostumar a suas camas secas, e o mesmo suas irmãs, os companheiros e… Os vizinhos. Na verdade, não me ocorria que houvesse alguma outra maneira de proceder com eles. Não achei necessário explicar nada ao pai, a mãe, as irmãs ou qualquer outra pessoa. Já lhe havia dito à menina o que ela sabia, mas não sabia que o sabia.

E todos vocês foram criados com a idéia que quando esvaziam a bexiga, a esvaziam por inteiro. E pressupõem isso. O importante é que todos tiveram a experiência que se alguem os interrompesse cortariam subitamente o jarro de urina. Todo o mundo teve essa experiência… e se esqueceu dela. Eu não fiz outra coisa que recordar a essa menina o que ela já sabia, mas não sabia que o sabia. Em outras palavras, ao fazer terapia vocês consideram cada um de seus pacientes como um indivíduo, e pouco importa que problema represente seu enuresis para os pais, as irmãs, os companheiros e os vizinhos: é fundamentalmente um problema da menina. Tudo quanto ela precisava saber era algo que já sabia… E quanto aos demais, a terapia consistia em deixar que cada um se amoldasse a sua maneira

A psicoterapia deve se orientar ao paciente e ao problema primordial em si mesmo. E lembrem-se disto: cada um de nós tem sua própria linguagem. Quando escutar um paciente, devem fazê-lo com pleno conhecimento que está falando numa linguagem alheia, e não tratar de compreendê-lo em termos da linguagem de cada um de vocês. Devem compreender o paciente na sua própria linguagem”(A Teaching Seminar with M.H. Erickson

Este conto das camas de Milton tem centenas de aplicações: posso controlar meus pensamentos, minhas condutas, minhas energias, meus hábitos, a ansiedade, só tenho que descobrir dentro de mim quais são os estímulos que me ajudam a começar e deter-me. Posso começar algo e terminá-lo antes de acabá-lo todo, posso fazer as coisas com mais calma.

Tradução – www.suamente.com.br – Aprenda mais sobre sua mente!

Fonte: http://www.pnlnet.com/chasq/a/1013

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