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Livrando-se da dependência
Por Dr. Richard Bolstad e Margot Hamblett
O que funciona?
Relatórios entusiastas sobre o sucesso obtido em centros de tratamento da dependência freqüentemente dissimulam o fato de que mais de 80% dos clientes não completam tais programas (Trimpey, 1996, p. 78). Uma vez que a própria publicidade é tão divulgada, o programa de 12 Passos tende a parecer bem sucedido, mas esse sucesso tem sido difícil de demonstrar na pesquisa. O Dr. Keith Ditman, responsável pela Clínica de Pesquisa sobre o Alcoolismo da Universidade da Califórnia, estudou aleatoriamente três grupos de transgressores alcoólatras mandados por um Juiz a uma organização AA, a uma clínica médica e os que ficaram sem tratamento. No período de acompanhamento, 69% dos clientes da AA cometeram novos delitos, e 68% dos da clínica também. Somente 56% daqueles que não fizeram tratamento voltaram a praticar transgressões. (Ragge, 1998, pp. 21-22). Dois estudos de 1997 indicam que os grupos de AA tiveram o mesmo sucesso que os de abordagem comportamental cognitiva, mas não há justificativa para a afirmação de que os grupos de 12 Passos se constituem na melhor solução para a cura da dependência.
Lembremo-nos de que muitas pessoas livram-se da dependência por si mesmas. O que acontece na vida dessas pessoas? Uma pesquisa feita com 2.700 fumantes ingleses mostrou que, na época em que eles pararam, geralmente mudaram de emprego, mudaram um relacionamento ou, de alguma forma, resolveram algum problema do seu estilo de vida. Também, eles param quando “deixam de acreditar naquilo que pensavam que o cigarro podia fazer por eles”, enquanto criam “novas crenças poderosas a respeito das vantagens de não fumar – crenças de que não fumar lhes oferece um estado desejável e digno de recompensa.” (Marsh, 1984). O programa que mostra a maior eficiência na metanálise da pesquisa sobre a dependência é o de treinamento em capacitação social (treinamento do tipo oferecido em nosso curso sobre Comunicação que Transforma; veja Bolstad and Hamblett, 1998). Usando-se a dramatização e a orientação, esse treinamento ensina os indivíduos como expressar claramente e sem culpa as suas preocupações, como ouvir efetivamente às preocupações dos outros, e como trabalhar em busca de soluções que sirvam tanto a eles quanto aos outros. A abordagem mais eficaz da dependência não é, na verdade, lidar com “a dependência”, mas resolver os problemas interpessoais existentes na vida da pessoa (Finney and Moos, 1998, p.157). Para usar uma analogia, a maior parte dos tratamentos da dependência é como estabelecer clínicas de AA para os soldados no Vietnam. O que funciona é trazê-los para casa.
O segundo tratamento de maior sucesso é o Brief Motivational Interviewing (Pequena Entrevista Motivacional) (Finney and Moos, 1998, p. 157). Esse tratamento é baseado num modelo desenvolvido por James Prochaska, John Norcross e Carlo DiClemente, que entrevistaram 200 ex-fumantes, para descobrir o que aconteceu (Prochaska et alia, 1994). Eles fizeram o acompanhamento de pessoas que haviam abandonado outras dependências, e encontraram os mesmos padrões. Surpreendentemente, a Entrevista Motivacional é feita em quatro sessões, o que a torna o tratamento mais breve disponível nessa área! A metodologia da Entrevista Motivacional não focaliza o conteúdo da dependência (ex.: educando as pessoas a respeito dos perigos da bebida) mas sim o processo de motivação para deixar o vício.
Os Seis Passos da Mudança
Prochaska e DiClemente (Prochaska et alia, 1994; Miller and Rollnick, 1991, p. 14-18) descobriram que mudanças pessoais bem sucedidas passam por um ciclo de seis estágios. Ajudar uma pessoa num estágio requer uma abordagem completamente diferente da abordagem usada em outro estágio (Ex.: tratar uma pessoa no estágio da contemplação como se ela estivesse pronta para a ação). Os estágios são os seguintes:

Entrevista Motivacional.
O modelo da Entrevista Motivacional baseia-se na pesquisa, mostrando que aqueles que conseguem mudar passam pelos seis estágios acima antes de deixarem a dependência. Pré-contemplação, Contemplação, Determinação, Ação, Manutenção e Reciclagem do processo.
Pré-contemplação. Neste estágio a pessoa não está consciente da incongruência seqüencial que os outros podem considerar “uma dependência”. Eles não “dominam o problema”. Uma ajuda útil nesse estágio busca criar uma situação em que a ajuda seja aceitável. A pessoa que ajuda pode:
- Obter permissão para oferecer informações e agir como consultor. Um consultor eficiente conhece os fatos, compartilha respeitosamente as informações, ouve as respostas da pessoa, e deixa a tomada de decisão para ela.
- Evitar falar sobre a incongruência para a pessoa, antes de “convencê-la” a agir sobre a mesma. O objetivo é simplesmente assistir à pessoa para que se torne mais consciente sobre aquilo que está acontecendo. O uso de habilidades eficientes de comunicação pelos assistentes e pelas pessoas envolvidas com o cliente é crucial neste momento. Isso inclui a habilidade de enviar uma clara mensagem “Eu …” (ex.: Quando você chegou em casa duas horas mais tarde do que havia programado, isso fez com que EU perdesse o filme que nós íamos assistir. EU fiquei realmente frustrado porque estava esperando ir com você.”) e ser capaz de responder à reação da pessoa ouvindo reflexivamente (ex.: “Você acha que estou super reagindo. Você simplesmente esqueceu e sente muito por isso.”) antes de reafirmar sua preocupação numa nova mensagem “Eu …” Essas habilidades são discutidas profundamente em nosso livro Transforming Communication (Comunicação que Transforma) (Bolstad e Hamblett, 1998).
- Encontrar maneiras de apresentar à pessoa as vantagens de mudar, ao invés de usar simplesmente a motivação “para longe de”. A pesquisa mostra que a motivação “em direção a” é extremamente importante na mudança, da pré-contemplação para a contemplação, enquanto reduz o conflito interior, e é mais importante na passagem da contemplação para o compromisso real. (Prochaska et alia, 1994, p. 162-171).